Tradução de Osmar Nonato Nascimento de Lima
Por isso você é tradutor. Tem uma relação íntima e amorosa com as palavras. Você se esforça para superar os desafios, dando tratos à bola para achar equivalências ― e não é só saber a diferença entre particípio e gerúndio. Você não só se preocupa com as nuances de estilo e registros culturais ― mas, sobretudo com a qualidade da tradução. É linguista, escritor, pesquisador, projetista gráfico; dominando uma vasta gama de assuntos ― excelente bagagem cultural, especialista em TI, conhecedor de informática... Enfim, homem dos sete instrumentos. Para trabalhar como freelancer, aquilo que o motiva é a busca à perfeição.
Sim, você é tradutor― trabalhando muitas horas em textos que ficam cada vez mais chatos (sejam longos manuais do proprietário e arquivos de ajuda que quase ninguém os leem). Você é obrigado a criar neologismos mesmo que as alterações de impacto não sejam prioridade em sua agenda. E ainda, presenciando a queda de remuneração tradutória à velocidade da luz e pergunto: quando seremos convidados a trabalhar de graça?
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Você pode sentir algo no ar enquanto as nuvens vão se formando. Talvez você ouça o som perturbador da automação e a visão da multidão, sem rosto, ficando cada vez mais evidente a cada dia. Deparou-se com um software livre e de código aberto, mas ainda não certeza de que tem que entender esses adjetivos num sentido positivo. Frases como "colaborar ou perecer" ou "comer ou ser engolido", deixa você apreensivo e ansioso sobre o futuro ao pensar em seus filhos, na hipoteca e em seus sonhos a realizar. Mas essas afirmações fazem com que você deixe de pensar? Fazem com que você olhe ao seu redor e com mente aberta para enxergar quais são realmente suas perspectivas?
Nem sempre é facil vislumbrar toda a paisagem e você encarar a montanha-russa de mudanças, enquanto faz malabarismos com diversos instrumentos de sua orquestra privada, é quase que implorar às forças sobrenaturais. Para ser capaz de ver o quadro em outra dimensão ― você deve olhar além de seu micro-mundo de tradutor freelancer e entender o que está realmente acontecendo lá fora, no mercado e além dele. Atualmente, as profundas mudanças macro estão afetando os mercados em âmbito mundial e só uma avaliação sem paixão pode lhe dar esperanças para resolver a sua situação e oferecer soluções para o futuro. Pode existir um mundo de fantasias para alguns, mas se você fechar a porta à realidade que vai entrando janelas adentro, quer goste ou não...
Primeiro, considere o paradigma da inovação aberta. William Chesbrough1 aponta as empresas que começaram a dar-se conta de que nem todas as pessoas inteligentes trabalham para si e que a vantagem competitiva, e muitas vezes, vem de saber tirar proveito de descobertas de outrem e abrir-se aos modelos de negócios de ideias externas, em vez de ter como base as suas próprias. Isso tem um enorme impacto sobre os novos modelos de negócios, que, em seus inícios, abraçam as tendências emergentes de colaboração.
Segundo, imagine a evolução da internet e o que ela significa para você. A transformação da Web 1.0 era como uma rua de sentido único, estática e estreita, que só permitia o consumo passivo. Agora, com a Web 2.0 ― autoestrada dinâmica de duas vias, com arquitetura de participação fomentando a colaboração interativa em todas as frentes, Juntamente com uma capacidade de armazenamento inimaginável e o poder de processamento de computação em nuvem, com foco centrado nos dados e terá como resultado uma tecnologia que tem um tremendo impacto no volume de conteúdo. Os conteúdos que exigem tradução, de acordo com a Common Sense Advisory, estão crescendo a um ritmo de 50% ao ano.
Terceiro, considere a situação econômica atual. Por que é, em especial, irritante ouvir com frequência frases assim "temos que apertar o cinto," não podemos subestimar o fato de que os orçamentos estão sofrendo cortes em todos os sentidos. Isso também se aplica à tradução. As empresas lutam com seus budgets de tradução e, enquanto alguns optam por traduzir mais, não ultrapassando o limite ― os outros são forçados a reduzir os recursos financeiros disponíveis, às vezes, nada menos do que à metade, e ao mesmo tempo, lidando com maiores volumes de conteúdo.
Levando em conta todas essas circunstâncias, as empresas e organizações vão tirar vantagem das tecnologias disponíveis, encontrando soluções inovadoras para atender suas necessidades de tradução cada vez maiores. A tecnologia criou ferramentas e processos por meio dos quais o trabalho manual poderá ser substituído ou melhorado pela automatização e as habilidades de que alguns poucos podendo ser substituídas pela força de muitos. Um bom exemplo é o aproveitamento avançado de dados linguísticos, e a TAUS tomou a dianteira, o que já vem beneficiando a muitos membros. Já começou a levar a sério a tradução por máquina ― não só pelos linguistas de computação, como também grande parte de empresas que têm a intenção de implementá-la em seus fluxos de trabalho nos anos por vir. Segundo o Gartner Group, o número de projetos de código aberto dobra a cada 14 meses, e em 2012 ― 90% das empresas vão empregar ferramentas de código aberto com diversas finalidades. Além disso, portanto, vem a multidão com sua sabedoria, seus ciclos de ociosidade e excedente cognitivo. Cada vez mais há empresas em todo o mundo que se servem, de maneira crescente, do potencial dessa multidão e muitas outras que refletem essa mesma intenção em seus cronogramas. Processos de tradução estão passando por mudanças semelhantes à introdução da tecnologia de vapor na era vitoriana. Não há necessidade de se mencionar os luditas...
Assim, que lição você tira de tudo isso? Como pode ser o agente e não a vítima da mudança? Como abraçar essas novas tendências sem trair seu amor pelas palavras ― seu padrão de qualidade e ainda seguir ganhando seu sustento? Que escolhas você tem?
Mas o mais importante a considerar é a arquitetura "open", ou aberta, em termos de tendências e tecnologias. Os 2 estudos demonstram que os preconceitos à tradução automatizada ou “crowdsourcing” devem-se com frequência a um conhecimento insuficiente dos processos envolvidos e ao medo do desconhecido. Somente uma atitude aberta, positiva e uma perspectiva imparcial podem revelar os possíveis benefícios que essas novas tecnologias e processos podem lhe oferecer.
Em segundo lugar, considere as “ferramentas abertas”. Pense que a tecnologia é sua aliada; não inimiga. Imagine que a orquestra de um só homem pode transformar-se numa banda, de músicos habilidosos, executando uma grande peça para uma grande audiência ― sem um regente. No mercado há ferramentas grátis com as quais poderá fazer justamente isso e, como elas são gratuitas, você está livre de dispendiosos licenciamentos e investimento inicial. Mas elas não são ricas em recursos, assim como algumas ferramentas proprietárias ― mas estão ficando cada vez melhores e, por sua própria natureza, passam por um constante desenvolvimento pelas comunidades de usuários. É verdade que deve haver alguns retoques nas conversões de arquivos, mas você pode contar com inestimável suporte da comunidade e, com um pouco de esforço, superar esse entrave.
Se quiser ficar na primeira fila, busque tanto quantos profissionais de confiança quanto as qualificações que precisa ― excluindo os intermediários e fique com os melhores. Poderá colaborar em tempo real, enquanto compartilha: TMs, glossários e revisando trabalhos de outros colegas. Segundo os estudos, 1 de cada 2 tradutores está convencido de que este método de garantia de qualidade é mais eficaz. Se o que você deseja é comodidade e evitar problemas, também tem a escolha de ficar em segundo plano, e traduzir on-tap, ou por toques, de acordo com as necessidades e quando for mais conveniente para você. Os sites que facilitam tradução sob demanda estão se proliferando e é uma boa opção para encontrar novos clientes.
Se não é fã de ferramentas de código aberto ― há no mercado ferramentas SaaS, muito boas e baratas, podendo ser utilizadas, sob medida, tendo tudo o que você precisa para levar a cabo um projeto sem nem mesmo necessitar de uma agência. Um bom exemplo é a nova XTM Cloud, ou Nuvem XTM, que inclui uma loja on-line orientada a clientes que já se inscreveram em algumas empresas, e em que todas as transações, inclusive os pagamentos, acontecem direto entre o tradutor e o cliente.
Comece compartilhando. Sim, suas TMs meticulosamente elaboradas, são um ativo de valor incalculável. Mas também são as TMs, ou memórias de tradução, dos demais tradutores. Não enterre seu “talento”, guardando-o só para você. O compartilhamento pode multiplicar seus ativos e conseguir um excelente retorno (com TAUS, 10 vezes mais). Os estudos demonstram que a escolha favorita para o reposicionamento é a especialização, para que seus dados possam ser aproveitados de maneira substancial, sobretudo se você trabalha em grupo, intercambiando memórias de tradução, dicionários etc. Você e seu grupo poderiam aceitar projetos maiores diretamente dos clientes, entregando-os de forma rápida e eficiente, e evitando os custos de elos de intermediação. O cliente gosta da ideia de economizar e se achar um nicho ― o esforço que investiu no aprendizado de novas tecnologias e a definição do processo será recompensado muito rapidamente. Você vai trabalhar com pessoas de confiança ― seus canais de comercialização se multiplicam por número de pessoas de seu grupo e as ferramentas de colaboração lhe permitem expandir-se em qualquer momento, surgindo então uma oportunidade para trabalhar com empresas ainda maiores.
Em terceiro lugar, pense em "processos". É muito provável que o crowdsourcing não figure como assunto primordial em sua agenda e há resistência à ideia de que o crowdsourcing para empresas com fins lucrativos é forte. Mas os estudos mostram que tradutores profissionais estão muito pouco familiarizados com o conceito e há padrões que apontam conflito na compreensão de seus benefícios e a apreensão causada por conhecimento insuficiente. A questão é que tradutores parecem concordar com a opinião de que o crowdsourcing não é um modismo e que ele não vai desaparecer a curto prazo.
O Financial Post relata que o crowdsourcing é um fenômeno que já atingiu à maturidade nas grandes empresas e está avançando para a implementação de soluções nas pequenas empresas. O CrowdFlower é um exemplo de provedor de crowdsourcing oferecendo soluções sob medida para empresas. Apesar de sua afirmação de que no momento não há muita atividade no setor da tradução, Lucas Biewald, fundador do CrowdFlower, crê que haja margem para a criação de valor e possibilidades que os tradutores profissionais comecem a participar em atividades que visem o lucro no futuro ― ao passo que o modelo vá se adaptando de maneira generalizada. Como As Jost Zetzsche observes3, observa, o crowdsourcing é um processo que está precisando de experiência profissional e de liderança ― tradutores profissionais poderiam se beneficiar na organização, manutenção e controle dos processos de qualidade de crowdsourcing. As pesquisas mostram que, até agora ― apenas 10% dos tradutores estão dispostos a se envolver nesta área. O Translation e L10N 2.0 têm comunidades no centro do fluxo de trabalho, por isso fica claro que existe uma necessidade e demanda para tradutores profissionais que trabalham conjuntamente com voluntários.
Além de haver grandes possibilidades de subir na cadeia de valor. Assim como um grande número de contadores assumiram funções de consultoria de gestão ― os tradutores profissionais poderiam oferecer serviços de consultoria de valor agregado, como os de assessoraria em assuntos culturais, técnicos ou de edição ou prestação de serviços de linguagem controlada. Seu papel poderia tornar-se muito mais importante, variado e divertido ― as possibilidades para o desenvolvimento estão aí, sem necessidade de sacrificar as coisas de que mais gosta.
As mudanças destrutivas sempre provocam resistência e deixam sequelas em suas vítimas. Mas também traz consigo grandes oportunidades para os que estão preparados, que utilizam os recursos que produzem. Esqueça os oportunistas desonestos que prosperam por aí ― haverá sempre alguém tentando tirar vantagem. No mundo profissional, não se pede que os tradutores trabalhem de graça nem estejam susceptíveis de ser reduzidos à condição de baixa remuneração dos call-center, que Garcia4 prediz. Eu estou mais de acordo com Bateman5, que argumenta que as novas ferramentas e processos vão abrir novos papéis e oportunidades para variedade e crescimento.
Nas palavras de Darwin, não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças – e se você não pode mudar algo, mude a maneira de pensar sobre isso. Com efeito, tudo começa com uma atitude. 'Aberto' é a palavra que definirá o futuro e, se você pudesse apenas imaginar o potencial que uma mente aberta combinada com outros recursos abertos (linguísticos e humanos) poderiam ― então, você já viu a luz. As mudanças não vão acontecer da noite para o dia, e é possível que você tenha a sorte de manter um status quo por algum tempo. No entanto, profundas mudanças estruturais na indústria de tradução estão acontecendo e seria sábio acompanhar de perto o cenário e permanecer aberto a novas ideias.
Referências:
1 Chesbrough, Henry William (2006) Open Innovation: The New Imperative for Creating and Profiting from Technology, Boston: Harvard Business School Press
2 Uma Pesquisa realizada por Joanna Gough como parte de seu Mestrado da Universidade de Surrey, Reino Unido. O estudo gerou 224 respostas utilizáveis de tradutores, principalmente da Europa (67%) e América (14%). Dados coletados entre 12 de julho e 22 de agosto de 2010.
3 Em Malcolm, Rachel (2010) ‘Crowd Control’, no Buletin da ITI ― janeiro-fevereiro de 2010, págs. 6-9.
4 Garcia, Ignacio (2009) ‘Beyond Translation Memory: Computers and the Professional Translator’ em The Journal of Specialised Translation, nº 12, págs 199-214.
5 Bateman, Scott (2009) ‘Capitalizing on trends reduces translation costs’, en Multilingual, julio-agosto de 2009, págs. 43-47




